17 de março de 2022

Percorri a pé alguns quarteirões da Avenida de Mayo em busca do n.º 1.370. Era uma quinta-feira à tarde e se pudesse dar um nome à cena seria caótica. A Avenida de Mayo é hoje uma tradicional grande rua do centro de uma grande cidade. Muito trânsito, muito barulho, muitos pedestres, muito comércio com as mais diferentes fachadas. Dos ares europeus e elegantes do início do século XX, restou pouco. Um dos resquícios daquela época é o Palácio Barolo, destino da minha caminhada naquela tarde. 

Inaugurado em 1923, foi idealizado pelo empresário Luis Barolo e projetado pelo arquiteto Mario Palanti. O intuito de Barolo era reforçar a arquitetura e a cultura europeias em Buenos Aires. Conseguiu mais que isso, a meu ver. Tendo A Divina Comédia, de Dante Alighieri, como principal referência, o Palácio Barolo é uma obra de arte singular; é o poema traduzido em concreto.

Desde sempre funcionando como um edifício comercial, percorrer o “inferno, purgatório e paraíso” do Palácio Barolo é possível somente através de visitas guiadas, realizadas para grupos pequenos o suficiente para caber no farol giratório, localizado no topo do prédio. Não foi difícil conseguir os tickets, mesmo comprando na hora da visita. Apesar de seu valor cultural, artístico e histórico, o Palácio Barolo parece (ou parecia na época) não ser dos locais mais procurados pelos visitantes da capital portenha.

Já no início da visita, o guia nos explica a estrutura do prédio. Tal qual A Divina Comédia, está dividido em três partes com as mesmas denominações: inferno, purgatório e paraíso.  Nestas três partes, estão distribuídos os 22 andares, mesmo número de estrofes das músicas da obra de Dante. Os nove elevadores de acesso representam os nove círculos do inferno através dos quais somos enviados de acordo com o pecado cometido. No topo do prédio, o farol giratório representa o amor entre Dante e Beatriz. E tudo junto somam 100 metros de altura; o mesmo número de cantos de A Divina Comédia.

Na medida em que subimos, vamos sendo apresentados a cada elemento do prédio que faz referência ao poema. Em paralelo, também vamos conhecendo detalhes de sua história, como o fato de que foi inaugurado na data do aniversário de Dante e, na ocasião, era o prédio mais alto da Argentina.

Ao chegar na cúpula, somos convidados a entrar no círculo de vidro do farol giratório. Para mim, foi como estar apertada numa lata de sardinha, transparente e flutuante, a 100 metros do chão. A sensação é de vertigem, assim como devem sentir-se aqueles que são tomados por paixões arrebatadoras, como Dante e Beatriz. A propósito, este farol representa o amor dos dois!

Encerramos a experiência tomando um café num terraço, de onde temos uma vista também privilegiada, porém de uma perspectiva mais convencional, de Buenos Aires. Não sei como é o paraíso, mas imagino e espero que nos permita pequenos prazeres como tomar um bom café apreciando uma bela vista, como é o “paraíso” no Palácio Barolo.

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By Luzia é uma galeria e diário digital focados em fotografia, leitura e histórias de viagens pelas lentes e escrita de Luzia Cavalcante.

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