9 de abril de 2022

Era uma manhã fresca e ensolarada de início de novembro quando tomamos nosso voo da Cidade do México (logo após o Día de los Muertos) para Mérida, a capital do estado de Yucatán. Foi o começo do que me atrevo a chamar de uma rota perfeita por Yucatán!

Chegamos pouco depois do meio dia, bem a tempo do nosso primeiro programa no berço da civilização Maya: almoçar no Kuuk, um premiado e elegante restaurante de comida yucateca, localizado num antigo casarão do período colonial espanhol. Não poderia haver programa melhor para dar o tom do que é Yucatán: uma combinação harmônica entre as heranças Maya e espanhola por todas as partes! 

Mérida foi fundada pelos espanhóis em 1542 sobre as ruínas do que um dia havia sido a cidade Maya de T’Hó. Não por acaso, percorrer Yucatán é se deparar o tempo todo com uma alternância de pirâmides e casarões coloniais, com mistura de crenças, com ares europeus e sabores Maya. 

O almoço no Kuuk foi um deleite! Na mesa, a estrela da culinária yucateca: Cochinita Pibil. Mas um outro prato, a base de enormes camarões, nos fez lembrar que estávamos a apenas 50km do Golfo do México.

Atravessamos a rua, desviando dos muitos carros em uma rotatória sem semáforo, e estávamos no Monumento a la Pátria! A grandiosa obra de Romulo Rozo que narra, através de seus detalhes, a história do México. Depois desse início, marcado por autênticas arte e gastronomia local, fomos à Casa de las Palomas, nosso refúgio no coração do Centro Histórico de Mérida, sobre o qual falei melhor neste post.

Após um descanso, percorremos a pé as ruas do Centro Histórico, até chegar à praça central da cidade, que foi o Zócalo quando Mérida ainda era T’Hó. Jantamos no terraço do Picheta, localizado em um dos prédios históricos da praça, apreciando do alto a Catedral de San Ildefonso, segunda mais antiga catedral do continente americano, construída com pedras das ruínas de T’Hó.

Dia seguinte. Saímos bem cedo para percorrer novamente o Centro Histórico, dessa vez vazio. Podemos contemplar com calma as ruas, as fachadas dos casarões – alguns bem preservados, outros em ruínas -, as igrejas centenárias… Voltamos à Casa de las Palomas com o café da manhã começando a ser servido à mesa, no pátio central do casarão com arquitetura de Riad. Fruta, suco, geleia, tortilha, feijão, pimenta… Mais uma vez, sentimos a marca de Yucatán: ares espanhóis, com sua influência árabe, e sabores Maya. 

Pegamos a estrada em direção a Uxmal, o principal sítio arqueológico da rota Puuc (estilo arquitetônico dos Maya daquela região) e patrimônio da humanidade. A estrada estava tranquila, quase não passaram outros carros por nós. Pouco mais de uma hora depois, chegamos ao destino. Foi fácil, rápido e tranquilo estacionar e comprar nossos boletos. 

A entrada no sítio é bucólica; uma estradinha de chão batido, cortada entre a vegetação generosa. Parece que estamos fazendo uma trilha e, de repente, somos impactados pela presença do maior monumento do sítio arqueológico: a Pirâmide do Adivino. Uxmal é suntuoso! 

O número de visitantes era relativamente pequeno, e parecia ainda menor quando espalhado pela imensidão do lugar. Foi muito fácil percorrer, sem ajuda de guias, aquele lugar tão surpreendente. Uma verdadeira joia histórica e artística, ainda pouco conhecida e visitada se comparada a Chichén Itzá.

Cerca de 4 horas depois, estávamos pegando a estrada de volta a Mérida. Nos divertimos no caminho analisando as letras melodramáticas das músicas que escutamos na rádio local, Mexicaníssima! As histórias contadas nas músicas não são muito diferentes, nem em conteúdo nem em tom, das novelas mexicanas.

Chegamos em Mérida a tempo de almoçar e de percorrer a pé a mais bonita avenida da cidade: Paseo Montejo. Repleta de lindos e bem conservados casarões coloniais, andar pela avenida que leva o nome do fundador de Mérida é um programa em si. Mas ao longo dos seus quase 5km é possível encontra museus, galerias, restaurantes, lojas e uma arquitetura de encher os olhos. Visitamos e tomamos um drink na Casa T’Hó, uma galeria dedicada ao design, moda e arte mexicana que funciona em um elegante casarão com arquitetura em estilo francês. Depois almoçamos no ’Te extraño, extrato”, restaurante localizado em outra galeria de arte, a Lagalá

Foi um dia intenso o suficiente para terminar com um bom descanso na piscina da Casa de las Palomas seguido pela comida yucateca do restaurante Teya, no que foi nosso jantar de despedida. 

Saímos cedo e cheios de gratidão e satisfação pela curta, mas muito bem aproveitada, estada em Mérida e seguimos nossa rota por Yucatán. A parada seguinte foi no Pueblo Mágico de Izamal. Pueblo Mágico é um título dado pelo governo do México às cidades que conservam bem seu patrimônio histórico e cultural. E Izamal é uma dessas cidades! Conserva até hoje a grande maioria das fachadas pintadas de amarelo, cor escolhida pelos colonizadores para representar a riqueza da cidade. Eu teria passado um dia inteiro e dormido por lá para visitar suas pirâmides, percorrer mais ruas, consultar um xamã. Mas permanecemos apenas por uma manhã, o suficiente para visitar o enorme, histórico e mal conservado Convento de San Antonio de Padua, algumas ruas do centro e almoçar no Kinich. A propósito, considero o Kinich um dos melhores restaurantes dentre os que conheci em Yucatán. Ele não tem o refinamento do Kuuk, mas quando você entra no Kinich, você está em Yucatán e sente isso! É pura essência da cultura local e, claro, a Cochinita Pibil é ótima!

Seguimos em direção a nosso próximo destino: Chichén Itzá. Foi nossa segunda vez por lá e senti como se o tempo não estivesse passado. Tudo como três anos atrás: muito turista, muito comércio, e tudo muito bem conservado e impressionante como da primeira vez! Chichén Itzá é um tributo merecido ao povo Maya. Mostra de maneira incontestável como eram um povo digno e evoluído para seu tempo. 

Saímos do sítio arqueológico com as portas fechando e fomos terminar o dia em Mayaland, um resort dentro da área de Chichén Itzá, com acesso privado à área dos monumentos, e onde também se encontra o Cenote X’toloc, considerado sagrado por ter sido utilizado pelos Maya para rituais. 

Enfim, nosso último dia em Yucatán! Passamos algum tempo apreciando a vista da varanda do nosso quarto em Mayaland, de onde podíamos ver o que o um dia foi o observatório utilizado pelos moradores de Chichén Itzá. Tomamos nosso café da manhã e fizemos uma passeio pela área do resort. 

Seguimos pelo nosso último trecho pela estrada: Chichén Itzá-Cancún (Quintana Roo). Mas, no meio do caminho, estava Valladolid, outra importante e histórica cidade de Yucatán. Fizemos uma parada e, com o tempo que tínhamos, escolhemos visitar o Convento San Bernardino de Siena. Construído em meados do século XVI, o Convento guarda segredos entre suas paredes e embaixo delas. Estudos arqueológicos descobriram muitas histórias sobre o local e parte delas está num pequeno museu, que funciona em suas instalações, juntamente com as funções religiosas. O San Bernardino de Siena é gracioso e sombrio ao mesmo tempo. Tenho certeza que o gosto por esse tipo de lugar não é consensual, mas se você, assim como eu, gosta de história, arte sacra e arquitetura, certamente também iria gostar de visitá-lo. 

Agora sim, seguimos para nossa última parada: Cancún, de onde tomamos o voo de volta para o Brasil no dia seguinte.

Yucatán é um dos lugares mais autênticos que já conheci. Sua história, arte, gastronomia e sítios arqueológicos encontram poucos paralelos em outros lugares do mundo. É bonito, acolhedor e enriquecedor. Eu, certamente, quero voltar lá mais uma vez, pois ainda há muito mais o que ver e vivenciar. Gracias, Yucatán!

 

 

Em tempo: infelizmente, o México é um país com altos índices de violência e percorrer suas estradas envolvem riscos. A propósito, se você fizer uma pesquisa sobre road trip pelo México, certamente encontrará relatos de pessoas que foram extorquidas pela própria polícia. Contudo, conosco correu tudo bem! As estradas do nosso percurso estavam em boas condições e muito bem sinalizadas (essa viagem foi em 2021). Além disso, esta é uma região muitíssimo frequentada por turistas do mundo inteiro e, pela minha experiência, considero que os risco ali são mínimos. Contudo, riscos existem em todo e qualquer lugar e circunstância, então, alguns cuidados são sempre bem vindos:

  • Alugue o melhor carro que puder, em uma locadora bem conceituada, e faça o melhor seguro que te oferecerem (alguns seguros oferecem até assistência jurídica);
  • Baixe um mapa off Line do seu trajeto, para o caso de ficar sem internet;
  • Respeite TODAS as regras de trânsito! Em especial, não tome bebida alcoólica e jamais ultrapasse o limite de velocidade indicado para a via que estiver percorrendo;
  • Caso seja parado pela polícia, mantenha a calma e siga as instruções com naturalidade. Nós fomos parados uma única vez, e o policial nos tratou com muito profissionalismo.
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Sobre

By Luzia é uma galeria e diário digital focados em fotografia, leitura e histórias de viagens pelas lentes e escrita de Luzia Cavalcante.

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